Satya: a verdade

June 16, 2009

O código de ética do Yôga possui dez preceitos, entre os quais estão a não-agressão, a verdade, não roubar, entre outros. Neste artigo discorreremos um pouco sobre satya (a verdade), e de que for este preceito é visto do ponto de vista do Yôga. 

 

A busca da verdade é uma das grandes questões da filosofia como um todo. O Yôga, como filosofia prática, traz a verdade como uma prática para o dia-a-dia, como a vivência da congruência: a correspondência entre o que se sente, pensa e como se age. O Yôgin vive cada instante de vida com a mente focada no momento presente. Com a atenção concentrada no aqui e agora se vive verdadeiramente. Sem deslocamento da consciência para o passado ou para o futuro. Não há de se falar em uma busca no plano das idéias, teórica, acadêmica; a veracidade na concepção da cultura Yôgin é de caráter prático e imediato e não uma concepção lógico-abstrata. 

 

Para esta filosofia, toda a palavra proferida é um mantra[1]. Quem realmente aplica satya faz com que cada palavra proferida tenha poder, poder genésico, criador, tendo estas a capacidade de, literalmente, criar a realidade. Se você só fala a verdade, tende a desenvolver o siddhi (poder) de prever/criar o futuro.

 

Aquele que faz o uso da inverdade tira o poder das suas palavras e passa a não acreditar mais em si mesmo, assim enfraquecendo as ações, as decisões e toda e qualquer atitude em sua vida.

Quando se faz uso estrito da verdade, obtêm-se resultados, mesmo sem tomar nenhuma atitude concreta. (II – 36) [2]

 

Além do caráter personalíssimo, da aplicação da verdade em nossas próprias palavras e atitudes, existe a questão de sermos passivos mediante o testemunho de inverdades. Conforme vemos no abaixo, em trexos do código de ética do Yôga:

 

“O yôgin não deve fazer uso da inverdade, seja ela na forma de mentira, seja na forma de equívoco ou distorção na interpretação de um fato, seja na de omissão perante uma dessas duas circunstâncias”.

“Conseqüentemente, ouvir boatos e deixar que sejam divulgados é tão grave quanto passá-los adiante”.

 

Desta forma, quando temos consciência de alguma mentira sobre algo ou alguém, devemos nos posicionar. Se tivermos a oportunidade de agir ante alguma injustiça ou boato e não o fizermos, esta omissão equivale à corrupção de satya. Podemos dizer que o omisso é co-autor das inverdades ditas, se podendo agir, não o faz.

 

Parte fundamental de satya(a verdade) é seu preceito moderador:

“A observância de satya não deve induzir à falta de tato ou de caridade, sob o pretexto de ter que dizer sempre a verdade. Há muitas formas de expressar a verdade.”

 

Como diz Renato Henriques[3], toda a verdade que dita se transformar em mal deve ser silenciada, mas jamais falceada. Se corrompermos este preceito moderador estaremos não estaremos aplicando ahimsá (não-agressão). A ética deve ser sempre vista de forma sistêmica. Jamais podemos ver e aplicar uma norma de maneira absoluta, pois assim estaremos certamente corrompendo a ética de outra forma. Por tanto, use sempre o seu melhor julgamento para agir sabendo que somos humanos e por vezes cometemos nossos equívocos, como qualquer outra pessoa.

Use sempre a verdade, mas seja cuidadoso com as pessoas. Existem varias formas de se dizer a verdade sem maltratar a outrem.

 

Fabiano Defferrari Gomes 

 

[1] MANTRA = PODER = PALAVRA.

 

[2] Pátañjali, Yôga Sutra, p. 76

 

[3] P. 173.

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